O que realmente importa

31/01/2020 | Nenhum comentário

Há uns dias atrás fui assistir a duas palestras em um evento de faculdade, sendo uma sobre finanças e outra sobre saúde e bem estar. Até aqui nada de anormal, a não ser por um fato que mexeu muito comigo: a diferença de públicos entre as palestras.

Enquanto na palestra sobre finanças a sala estava lotada, na outra sobre saúde e bem estar a sala estava com apenas quatro pessoas. É fato que na programação do evento, a palestra sobre finanças ocorreu primeiro e, talvez, o horário de início e fim da outra palestra pode ter motivado as pessoas a não ficarem, mas diante da grande diferença de público, tenho a impressão que a ordem inversa de horários não mudaria muito o que foi visto. Fiquei bastante reflexivo sobre essa situação e admito que até fiquei com medo de estar “problematizando-a”. Analisando o tratamento tão distinto dado pelo público para os temas dinheiro e saúde, me veio a mente esta citação do livro “O Poder do Ouro” (p.13), de Peter L. Bernstein, que pode soar como uma analogia desmedida, mas considerei bem contextual:

Há cerca de cem anos, John Ruskin nos narrou a história de um homem que embarcou num navio levando toda sua riqueza, que consistia num grande saco cheio de moedas de ouro. Uma terrível tempestade os alcançou alguns dias depois e todos tiveram que abandonar o navio. Depois de amarrar o saco na cintura, o homem subiu ao convés, saltou a amurada e afundou instantaneamente. Ruskin nos pergunta: Então, quando estava afundando, ele tinha o ouro? Ou era o ouro que o tinha?

Nesta estória, temos uma situação em que um homem preferiu morrer ao largar de fato seu dinheiro. Traçando um paralelo entre ficção e realidade, me questionei: quando negligenciamos a chance de entender melhor como cuidar da nossa saúde, mas temos total dedicação para “aprender” a ganhar mais dinheiro, não estamos sendo como o homem retratado por John Ruskin?

Fazendo um levantamento rápido de dados sobre a saúde da população, em pesquisa da OMS de 2017 foi constatado que a depressão afeta 5,8% dos brasileiros, e, nesta outra publicação de 2019,  é reportado que a obesidade afeta 20% de nossa população.  Nenhuma destas pesquisas relacionam dinheiro a doenças, até porque ele por si só não faz mal algum, mas numa sociedade de tantas pessoas “felizes” em suas redes sociais, estas informações são alarmantes e denunciam que algo está estranho demais com nossa saúde para que palestras sobre como cuidar dela sejam ignoradas (prefiro acreditar que a maioria, se não todos, que não puderam ou não quiseram ouvir a segunda palestra, nem saibam de dados tão preocupantes).

Outra citação interessante sobre amor ao dinheiro acima de tudo, está na bíblia em Mateus 19:16-30. Nesta passagem há a parábola do jovem rico, jovem este que tinha orgulho de dizer que cumpria todos os dez mandamentos. No decorrer da história, quando Jesus foi questionado por ele sobre o que era necessário para ter a vida eterna (algo que nos instiga até os dias de hoje), Jesus o respondeu que era preciso vender tudo e doar o seu dinheiro aos pobres. No versículo 22 cita: “Ouvindo isso, o jovem afastou-se triste, porque tinha muitas riquezas”. Mais uma vez todos os demais valores foram esquecidos, afinal dinheiro vale mais.

Vivemos numa cultura milenar de valorização do dinheiro acima de tudo e vemos em duas citações como tal relação é forte. De fato, o dinheiro é necessário e útil para nos dar uma vida melhor, condição de realizar nossos sonhos, e foi a sua invenção que direcionou nossa sociedade para uma evolução jamais vista, mas o que tenho observado ao meu redor é uma busca indiscriminada por ele que nos faz esquecer de tudo, até mesmo os cuidados com nossa saúde, família, amigos e com nossa mente.

Decidi escrever sobre isso pois em minhas leituras notei como o cuidado com a saúde é algo fundamental. Há alguns anos tenho buscado praticar exercícios físicos regulares, manter uma alimentação equilibrada e continuar sendo um bom profissional (que ganhe dinheiro, claro). Como testemunho pessoal, posso afirmar que minha vida profissional melhorou muito a partir do momento que passei a priorizar minha saúde física e mental, em detrimento das horas extras incontáveis, salários maiores e ausência de horas de lazer e/ou ócio.

Agradeço a Deus por ter enxergado que o cuidado da minha mente, corpo e espírito podem me levar muito mais longe na vida, que apenas o cuidado com o bolso, mas infelizmente percebo que isso não é um raciocínio de lugar comum na mente da maioria dos brasileiros. Precisamos repensar o que de fato importa em nossas vidas, pois não precisa pesquisar muito no google para encontrar pessoas que trabalharam arduamente a vida inteira, mas morreram antes de poder desfrutar de tudo que conquistaram.

Dinheiro é importante, mas jamais pode ser a base de nossa felicidade e nosso propósito de vida, e sim um instrumento para alcançar objetivos. Vejo a grande maioria das pessoas com olhos fixos no “ganhar mais”,  ao invés do “se cuidar mais” e relembrando a citação de John Ruskin, percebo que, “o ouro tem nos possuído mais, do que a gente tem possuído o ouro”.

Em nosso Brasil, boa parte da população ganha menos que merece (vide pesquisa IBGE) e pode soar impopular dizer que cuidar de si é mais importante que batalhar pelo pagamento dos boletos, mas vendo a transformação que vivi, quando entendi que a vida deve funcionar diferente, não consigo conceber que a maioria continue na “corrida dos ratos“.

Que venhamos ter a  mesma sabedoria ensinada em Eclesiastes 4:6

Melhor é ter um punhado com tranquilidade, do que dois punhados a custa de muito esforço e de correr atrás do vento.

E Eclesiastes 4: 15

O homem sai nu do ventre de sua mãe, e como vem, assim vai. De todo o trabalho em que se esforçou nada levará consigo.

Torço para que através da leitura, pessoas tenham a vida transformada, e entendam que saúde é mais importante que ganhos. Isto é algo que tem que nascer em cada indivíduo, pois não cabe ao presidente (ainda bem) nos ensinar, por exemplo, que trinta minutos de caminhada ajudam a melhorar a saúde do coração.  A internet está aí cheia de informações úteis, palestras online e in loco espalhadas por todo canto, praças com aparelhos de ginástica gratuitos, enfim, temos condição de nos cuidar sem abrir mão de ganhar nosso dinheiro. Creio que a frase do personagem Paulo Cintura, da escolinha do professor Raimundo, resume muito bem meu post: “saúde é o que interessa e o resto não tem pressa”. Que isso seja um mantra, uma verdade escrita no coração de todos e que vidas sejam mudadas com o entendimento disso (e que a próxima palestra sobre saúde e bem estar, esteja mais cheia).


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